A porta da geladeira já não fecha mais...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Fragmentos de uma peça interspessonal

(palco com 8 luminárias, criados-mudos embaixo das luminarias. as luminarias podem ficar bem destribuidas pelo palco. há uma poltrona grande no meio do palco. luz em cima, recortando a poltrona apenas)

CENA I
(luminarias apagadas) (entra P1) (P1 senta na poltrona)

P1- Ratos dominarão o mundo. Guarde. Desculpe, acho melhor entrar de novo, errei a fala. Vamos lá.. de novo...

Os ratos dominaram o mundo. Eles sairam de seus bueiros, de suas rotinas obscuras. Calma lá.. ratos tem suas rotinas muito mais nos bueiros do que a gente pensa, e isso não as torna como rotinas obscuras. Droga.. me desculpe, me exaltei. Perdi o controle. Juro que até o fim eu falarei, apenas falar. Falar é de uma satisfação sem igual, não é?
... Ah é.. os ratos. Aqueles ratos que não suportava mais.
Eles tinham algo que me deixava louco. Já vou logo avisando: homem + rato é sinal de merda! Daquelas fedidas..
Todos os dias eu os via. Todos os dias nos víamos..e me olhavam com cara de: é homem ou é rato? Ratos me definindo, ratos me analisando. Ratos de laboratorio, que por ironia da liberdade utopica, fugiram dos laboratorios, e vieram me atormentar, pregando questionamentos, pregando a falta de paz.
"Você é um homem ou é um rato?"
Ratos do mundo, ratos de porão. Ratos selvagens que por trás de seus dentes carregados de chagas patologicas, te olham, te instigam à loucura.
Ratos... homens... qual é a merda da diferença?
Ratos poluem, homens poluem. Ratos carregam veneno. Homens são o próprio veneno.
Ratos são a praga do mundo... pra nós... nós.. e nós... nós... praga do mundo... nós... os ratos... a praga de todo mundo... que mundo... esses ratos.. e nós...nessa praga de mundo... que praga.. os ratos... QUE MATEI! PORRA DE RATOS!
Eram ratos que não eram daqui, tenho certeza! Eles brigavam todos os dias, eles fodiam todos os dias, eram ratos imundos.
Eu olhava pela janela, e os via, vivendo em seu bueiro, com aquele amor aconchegante e minimo.. que eram aqueles ratos!
Certo dia a loucura que aqueles ratos me instigavam chegou ao dia D. Dia de ACABAR COM TODA A RAÇA DE RATOS QUE OCUPAVA NO MUNDO! AQUELA RAÇA, DENTRO DAQUELA CASA! Entrei no bueiro deles, pela porta da frente mesmo. Eles jantavam, jantavam folhas e cogumelos. Ratos finos de merda! E como um bom tímido que são os.. eles.. cheguei seco, fino, como eles, e os cerquei.
Eram ratos na ratoeira. Na ratoeira que mereciam morrer na própria ratoeira, no proprio bueiro. Os paralisei contra a parede e cortei o mal pela raiz, pelo rabo, pelo cú do mundo. A sensação de exterminio sobrivivencial era maior que os gritos dos ratos. Os gritos que foram se transformando em gemidos, em suspiros, em... respiros.. em silêncio...
Voltei a porta. (ao lado da poltrona, pega a sacola que está ao lado, tira um queijo redondo)
Voltei na armadilha... voltei pra aqueles ratos sem rabo na ratoeira, no canto da sala de jantar. Eu os via com aqueles olhos espantados. Por um momento era poesia, por um segundo na verdade... eram homens. eram ratos. homens de merda que se amavam, ratos de merda que..
Voltei novamente a porta. (indo em direção a alguma luminaria). Voltei do jeito que entrei naquela merda de casa de ratos de merda!
(deixa o queijo ao lado de um criado mudo, no qual a iluminara o queijo)
Voce é um homem ou é um rato?
Grande merda.
Eles dormem, nós acordamos. Nós dormimos, eles acordam.
Você é um homem ou é um rato?
Grande merda.
Somos grandes, grandes merdas. Eles são muitos. São muitos....

(P1 sai de cena)


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